quinta-feira, 9 de novembro de 2017

não há diferença na Diferença.



Ela pega no lápis e desenha. É como se as imagens que nascem na cabeça se fundissem com o lápis e os riscos fluíssem como se fosse fácil fazer o que ela faz no papel. Como se não houvesse nada para além dela e da folha que vai preenchendo de forma livre. E ela faz o que quer. 


Ninguém fala com ela. Não sei se é por não saberem como falar ou por terem medo de admitir que não sabem como falar com ela. Ela não fala como nós. Ela fala com as mãos no espaço, ela mexe-as e a ideia sai sem abrir a boca. É como se desenhasse sem papel. Mas ninguém a percebe. Se calhar porque somos cegos, se calhar porque não somos nós que falamos sem voz, se calhar porque é diferente. Já disse que ela é diferente? Ela pega no lápis e o faz o que quer! Ela veste-se sem se preocupar com o que os outros vão pensar, ela anda no mundo dela, às vezes acho que nem nos vê, mas quando olhamos para ela e acenamos, ela sorri. Ela é surda, não ouve, nem se berrarmos, porque eu já experimentei e não resultou! 

Lá está ela a olhar para o professor e para a intérprete que lhe vai traduzindo o que ele está a dizer. Desde que a intérprete veio parece tudo mais claro! Afinal ela fala língua gestual e consegue ler os lábios. Parece incrível como é que ela percebe exactamente o que o professor quer sem ouvir. Estou há 20 minutos a olhar para a intérprete e só percebi que o gesto de desenhar é como se desenhássemos no ar. E ela já está a esboçar mais um dos seus desenhos perfeitos. 

Vou-me aproximar, vou sentar-me ao lado dela! Aceno a mão e faço o gesto de desenhar, apontado para o papel. Ela sorri e mostra-me o desenho que se começa a parecer com uma floresta. O objetivo é desenhar o que será o fim do mundo. Perguntei se era por causa dos incêndios que destruíram uma grande área florestal do país. A intérprete aproximou-se e traduziu. Ela respondeu. Disse que também era por isso mas o que árvores têm de especial não é só o facto de nos darem oxigénio e serem o habitat de tantos animais. O que as árvores têm de especial é que fazem isso tudo e ainda são parecidas com os humanos. Há árvores que não podem estar juntas, há ervas que são necessárias arrancar porque secam as árvores, há árvores e plantas que protegem outras e fazem com que cresçam mais saudáveis. Eu não percebi! A intérprete traduziu e eu não percebi! 

Ela olhou para mim – já disse que tem olhos azuis? Nunca os tinha visto tão de perto – inclinou a folha para que ambos a víssemos e escreveu no meio da floresta:

Há pessoas que não podem estar juntas. Há olhares, medos, receios e estereótipos que têm que acabar antes que sequem o coração das pessoas. Há pessoas que se protegem umas às outras, que não têm medo das diferenças entre si, que se cuidam, que se cultivam, que ajudam, que aparecem na nossa vida só para nos fazer crescer mais saudáveis.
Já disse que as árvores não são humanas? Mas há humanos que são árvores!”

Peguei na caneta, olhei-lhe nos olhos e escrevi:

“Hoje deixei de ser árvore e passei a ser humano! Ensinas-me a tua língua?”

Ela fechou a mão em punho, flectiu o pulso para baixo e sorriu.







                             Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.
 


sábado, 28 de maio de 2016

Já pensaste nela hoje?



Já pensaste nela hoje?
Já pensaste se um dia acordas e ela não está ao teu lado?
Já pensaste se um dia deixas de poder dizer-lhe que a amas? Que amas o olhar sério dela fixado em ti quando dizes parvoíces? Que amas o sorriso disfarçado que ela faz quando dizes essas mesmas parvoíces? E aquela mania que ela tem de te pedir um beijo apaixonado enquanto analisa meticulosamente se fechas os olhos – sim, porque um beijo apaixonado só o é na realidade, se os olhos fecharem – já lhe disseste que amas isso ou estás à espera de não lhe poder dizer?
A vida está complicada agora! Anda tudo a correr de um lado para o outro, a pensar no futuro e no futuro que podem não vir a ter. As pessoas centram-se em si, no trabalho, na carreira, no futuro e às vezes esquecem-se que o futuro muda de dia para dia e somos nós que o fazemos! Somo nós que escolhemos o nosso futuro e quem queremos ter ao nosso lado!
Um dia acordas e és tudo aquilo que sonhaste ser! Tens tudo aquilo que respondias quando te perguntavam “Então? Quais são os teus planos para o futuro?”.
Nesse momento ela está em frente à cama, com aquele soutien que a magoa de lado, – mas ela prefere colocar uma rodinha de algodão do que comprar outro, até porque ela não sabe bem comprar soutiens, mas isso não importa nada, porque assim podes meter-te com ela e deixá-la envergonhada por andar com aquilo assim! Ai e como tu gostas de a ver envergonhada! – está a queixar-se da barriguinha que não desaparece e a lamentar a chorrada de doces que comeu na noite anterior, vai girando de um lado para o outro enquanto tenta agarrar algo que existe mais nos olhos dela do que na realidade e refile quando ouve “não tens nada, estás perfeita para mim!”.
Mas sabes uma coisa? Nesse momento podes não ser tu o homem que está deitado na cama a apreciá-la em mais uma das suas crises de trenguice, – aquelas que tu amas – o que decora o corpo dela com o olhar cada vez que ela gira de um lado para o outro e o que a envolve e a beija, lembrando-a de que para si, ela é perfeita!
E depois? Nesse momento, esse é o teu futuro e foi assim que o imaginaste? Se calhar não! Se calhar não pensaste que terias que lutar para que ela fizesse parte desse futuro também! Não é por ela ser tua que vai ser sempre tua!
Também tens que a lembrar de algumas coisas! Tens que a lembrar que amas como ela é e como ela faz para ser só para te agradar! Tens que a lembrar que mesmo quando não dizes, a resposta certa àquela pergunta que te fazem sempre, é “Os meus planos para o futuro? Conseguir tudo pelo que luto profissionalmente e ter a minha rapariga ao meu lado a vencer comigo!”.
Já lhe disseste que ela é o teu futuro? Ou que pelo menos, queres que ela nunca passe só a ser passado?
Não? Então começa a dizer-lhe! Porque como a vida está, nada é certo! A vida muda de hora em hora e ela já pensou nisso!
É por isso que ela tem tantos medos, tantas dúvidas e, às vezes, anda tão triste que nem consegue disfarçar. Ela tem medo de te perder meu amigo! Ela tem medo que quando só percebas que a podes perder quando a perderes! Que percebas que devias ter-lhe dito um monte de lamechices, quando já não puderes dizer! Ela tem medo de um dia acordar e tu já não estares ao lado dela e ela já não poder dizer que te ama, de te chamar parvo por não responderes ao estilo dos filmes do Nicholas Sparks e de acreditar piamente que um dia isso vai acontecer sem que seja só mais uma brincadeira tua – aquelas que ela até vai amando –.
Então não esperes que esse dia chegue! Acorda e diz-lhe que a amas! Mostra que a amas! Porque se tirares todos os dias, um tempinho para ela, ela vai estar sempre lá quando acordares! 


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Vidas Descobertas!


Sai de casa. Leva o cabelo solto penteado pelo vento. Já não usa o velho casaco branco-sujo até aos joelhos que a igualava às detectives das series do AXN, nem as botas com um padrão que me fazia lembrar o natal. Vai descalça! Descalça de medos, preconceitos, inseguranças e de amor!
Já não sobe a rua com uma pressa descontraída, agora vai apenas descontraída. É como se os seus pés já não soubessem precisamente para onde vão, mas vão! Vão devagar, disfarçados de tranquilidade, desconfiados - mesmo que já não precisem mais de correr, fugir ou até mesmo, desaparecer -, vão cautelosos, talvez mais agora, talvez menos amanhã.
Já não ignora olhares nem sorrisos. Agora devolve-os com uma amabilidade automática que lhe foi nascendo. Talvez já não fixe todos a quem os devolve, nem todos os que reparam nela, ou talvez sim! Talvez a sua memória se mantenha intacta, talvez seja a única.
A rua chega ao fim, o metro vem, ela entra e a porta fecha!
Volta a descer a mesma rua ao fim do dia, mais leve. Como se os seus pés soubessem precisamente quantos caminhos percorreram, mas continuam prontos para aprenderem mais, devagar, disfarçados de tranquilidade, desconfiados - mesmo que nunca mais seja preciso correr, fugir ou até mesmo, desaparecer -, vêm cautelosos, mas prontos para amanhã, talvez!
Abre a porta, entra e é como se nunca tivesse saído. Apesar de haver quem diga que lhe viu um sorriso, que lhe ouviu um “bom dia”, o hoje confunde-se quando a idade já não é a mesma e a memória também não. Pois só a dela se manteve intacta!
Já não faz a mesma rotina todos os dias, já não a conheço quase como se fosse minha. Já não é como se fossem os meus olhos que vêem o metro chegar e os meus pés que sobem aquela rua. Já não sei de cor todos os degraus que ela sobe, nem todas as lágrimas que ela deita, continuo a acreditar que ainda tenha muitos mais para subir e continuo sem suportar ver as lágrimas caírem-lhe. Já não há olhares trocados, palavras, beijos, toques nem desejos para imaginar. - Ou talvez só os imagine ela e eu faço que não sei, pois agora sou eu que os tenho.
Vou conhecendo os sorrisos que tudo isto a faz ter e a felicidade que tudo isto lhe traz e, espero nunca precisar de, um dia, deixar voar o que nunca foi meu, como ela deixou. Pois eu não conheço ninguém que o conseguisse fazer como ela.
A vida é mesmo assim, somos nós que escolhemos o nosso caminho e ela escolheu o dela, pondo de parte todos os medos e inseguranças que qualquer um sentiria – ou apenas fingindo-o – e enfrentou-o com a coragem e determinação que só ela sabe ter. É isso que faz com que este jardim, onde só fica quem ela quer, seja dos lugares que mais me ensina e o que mais a completa. E como me sinto tão pertencente àquele refúgio, mesmo que já não o seja tanto fisicamente, atrevo-me a reforçar-lhe o nome: Coração de Irmã!


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.