Sai de casa. Leva o cabelo amarrado, umas calças justas, umas botas com um padrão que me faz lembrar o natal e um casaco branco-sujo até aos joelhos, que a faz parecer uma daquelas detectives das séries do AXN. Sobe a rua com uma pressa descontraída, como se os seus pés soubessem precisamente para onde vão mas a sua postura discreta reflectisse um destino incerto. Muito segura de si, continua a caminhar, sempre com o mesmo ritmo, ignora todos os olhares que nela fixam, mas faz um registo preciso de quem nela reparou. A rua chega ao fim, o metro vem, ela entra e a porta fecha.
Volta a descer a mesma rua ao fim do dia, igualmente parecida às detectives das séries do AXN, com a mesma pressa descontraída, como se os seus pés soubessem precisamente de onde vêm e a sua postura discreta não lhes permitisse revelar a ninguém. Abre a porta, entra e é como se nunca tivesse saído.
Ninguém sabe onde foi, ninguém sabe se vai todos os dias para o mesmo sítio, na verdade, ninguém sabe se realmente ela chegou a sair.
Esta rotina, aparentemente coordenada, dura á já alguns anos e eu conheço-a quase como se fosse minha. É como se fossem os meus olhos que vêem o metro chegar e os meus pés que sobem aquela rua. Sei de cor todos os degraus que ela subiu, sei de cor todas as lágrimas que ela deitou, acredito que ainda tenha muitos mais para subir e não suporto ver as lágrimas a caírem-lhe. Imagino todos os olhares trocados, todas as palavras, todos os beijos, todos os toques e desejos. Não esqueço nenhum sorriso que tudo isto a faz ter, não esqueço a felicidade que tudo isto lhe traz e, um dia, espero encontrar o amor que ela encontrou. - Talvez não da mesma forma, sem duvida nenhuma, da mesma forma não. Mas cada pessoa tem a sua maneira de amar, cada pessoa tem o seu amor perfeito, que de perfeito não tem nada, mas os nossos olhos não conseguem vê-lo doutra forma. Mas para mim, no fundo, amor é amor, independentemente de como seja mostrado e tratado, o amor verdadeiro só tem um significado, ou então não tem nenhum e é por isso que ninguém sabe descrevê-lo com precisão. - E é por tudo isto que aprecio esta loucura com tanta admiração que já me parece tudo bem possível, e na verdade é! Mas eu não conheço ninguém que a pudesse cometer a não ser ela.
A vida é mesmo assim, somos nós que escolhemos o nosso caminho e ela escolheu o dela com todos os medos e inseguranças que qualquer um sentiria, mas enfrentou-o com a coragem e determinação que só ela sabe ter. É isso que faz com que este jardim, onde só entra quem ela quer, seja dos lugares que mais me ensina e o que mais a completa, apesar de todos os espinhos que nele tentam entrar. E como me sinto tão pertencente àquele refúgio, atrevi-me a dar-lhe um nome: Coração.
Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

