O sol nasce por de trás da montanha, os seus raios invadem-me o quarto entrando pela pequena janela de madeira gasta e apenas se ouve o cantar dos pássaros e o meu respirar. Levanto-me e deixo que o ar puro e madrugador me refresque o corpo e a alma.
Estou longe de tudo e perto de mim. Aqui não há confusões por coisas desnecessárias, maus olhares ou sorrisos forçados. Aqui as pessoas dão valor ás pequenas coisas, não pelo seu tamanho mas sim pelo seu significado. Aqui, nesta aldeia – povoada por casinhas de madeira e pedra, antigas, gastas e fortes - que nem muita gente conhece, os rios correm calmos e claros, a natureza é dona de si mesma, as pessoas conhecem-se todas – o que não importa muito, porque mesmo que sejam estranhos, elas vão cumprimentar com o mesmo tom simpático e cortês que trocam entre si -, o ruido dos carros é abafado pelas caminhadas, tal como o seu fumo é pelo perfume ao qual ainda não dei um nome concreto, não consigo classificar a suavidade, a calma e o conforto que sinto, apenas me cheira bem.
Não vivo aqui nem tão pouco nasci cá, mas se pudesse escolher sem pensar em mais nada, viveria! Embora talvez, se eu fosse realmente daqui, a certa altura deixasse de ver esta terra com os olhos que a vejo. Dizem que quando desejamos algo, vemo-lo não só como ele é mas também como ele nos faz ser e, depois quando nos habituamos a tê-lo, deixa-mos de vê-lo assim e passamos a vê-lo apenas como ele é ou, por vezes, nem isso. Deixa-mos de dar importância ao que era importante, deixa-mos de admirar o que era admirável e tornamos tudo aquilo que deseja-mos numa rotina sem interesse. Mas eu não concordo com isso.
Talvez esteja enganada, mas se desejamos algo, então não devemos deixar que a rotina vença e nos roube tudo aquilo que via-mos e tudo aquilo que era-mos quando o via-mos precisamente da forma como nos fazia sentir bem.
Por isso e por todo o resto que não sei descrever, eu acho que não me arrependeria de lá morar, eu acho que os meus olhos iam continuar a ver aquela aldeia - que parece de brincar – da mesma forma que a veem agora ou, quem sabe, com ainda mais encanto e, eu tenho a certeza que não me ia permitir, a mim própria, deixar de ver e sentir o encanto no que encantado é. Mas, por agora, aquele não é o lugar onde eu posso estar 24 horas por dia, o qual eu posso chamar de lar. Um dia, até pode vir a ser o meu lugar, mas, por agora, é apenas o meu refúgio.
E os refúgios são mesmo assim... Não são a nossa casa, mas é onde nos sentimos em casa; não nos pertencem mas nós pertencemos-lhes; não podemos viver sempre lá mas também não podemos viver sem lá ir.
O sol poe-se por de trás da velha igreja, fecho a pequena janela de madeira gasta, o meu corpo arrepia-se com a chegada do calor artificial do aquecedor e apenas se ouve o sino a tocar e o meu respirar.
Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

