quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Vidas Descobertas!


Sai de casa. Leva o cabelo solto penteado pelo vento. Já não usa o velho casaco branco-sujo até aos joelhos que a igualava às detectives das series do AXN, nem as botas com um padrão que me fazia lembrar o natal. Vai descalça! Descalça de medos, preconceitos, inseguranças e de amor!
Já não sobe a rua com uma pressa descontraída, agora vai apenas descontraída. É como se os seus pés já não soubessem precisamente para onde vão, mas vão! Vão devagar, disfarçados de tranquilidade, desconfiados - mesmo que já não precisem mais de correr, fugir ou até mesmo, desaparecer -, vão cautelosos, talvez mais agora, talvez menos amanhã.
Já não ignora olhares nem sorrisos. Agora devolve-os com uma amabilidade automática que lhe foi nascendo. Talvez já não fixe todos a quem os devolve, nem todos os que reparam nela, ou talvez sim! Talvez a sua memória se mantenha intacta, talvez seja a única.
A rua chega ao fim, o metro vem, ela entra e a porta fecha!
Volta a descer a mesma rua ao fim do dia, mais leve. Como se os seus pés soubessem precisamente quantos caminhos percorreram, mas continuam prontos para aprenderem mais, devagar, disfarçados de tranquilidade, desconfiados - mesmo que nunca mais seja preciso correr, fugir ou até mesmo, desaparecer -, vêm cautelosos, mas prontos para amanhã, talvez!
Abre a porta, entra e é como se nunca tivesse saído. Apesar de haver quem diga que lhe viu um sorriso, que lhe ouviu um “bom dia”, o hoje confunde-se quando a idade já não é a mesma e a memória também não. Pois só a dela se manteve intacta!
Já não faz a mesma rotina todos os dias, já não a conheço quase como se fosse minha. Já não é como se fossem os meus olhos que vêem o metro chegar e os meus pés que sobem aquela rua. Já não sei de cor todos os degraus que ela sobe, nem todas as lágrimas que ela deita, continuo a acreditar que ainda tenha muitos mais para subir e continuo sem suportar ver as lágrimas caírem-lhe. Já não há olhares trocados, palavras, beijos, toques nem desejos para imaginar. - Ou talvez só os imagine ela e eu faço que não sei, pois agora sou eu que os tenho.
Vou conhecendo os sorrisos que tudo isto a faz ter e a felicidade que tudo isto lhe traz e, espero nunca precisar de, um dia, deixar voar o que nunca foi meu, como ela deixou. Pois eu não conheço ninguém que o conseguisse fazer como ela.
A vida é mesmo assim, somos nós que escolhemos o nosso caminho e ela escolheu o dela, pondo de parte todos os medos e inseguranças que qualquer um sentiria – ou apenas fingindo-o – e enfrentou-o com a coragem e determinação que só ela sabe ter. É isso que faz com que este jardim, onde só fica quem ela quer, seja dos lugares que mais me ensina e o que mais a completa. E como me sinto tão pertencente àquele refúgio, mesmo que já não o seja tanto fisicamente, atrevo-me a reforçar-lhe o nome: Coração de Irmã!


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.