Ela pega no lápis e
desenha. É como se as imagens que nascem na cabeça se fundissem com o lápis e
os riscos fluíssem como se fosse fácil fazer o que ela faz no papel. Como se
não houvesse nada para além dela e da folha que vai preenchendo de forma livre.
E ela faz o que quer.
Ninguém fala com ela. Não
sei se é por não saberem como falar ou por terem medo de admitir que não sabem
como falar com ela. Ela não fala como nós. Ela fala com as mãos no espaço, ela
mexe-as e a ideia sai sem abrir a boca. É como se desenhasse sem papel. Mas ninguém
a percebe. Se calhar porque somos cegos, se calhar porque não somos nós que
falamos sem voz, se calhar porque é diferente. Já disse que ela é diferente? Ela
pega no lápis e o faz o que quer! Ela veste-se sem se preocupar com o que os
outros vão pensar, ela anda no mundo dela, às vezes acho que nem nos vê, mas
quando olhamos para ela e acenamos, ela sorri. Ela é surda, não ouve, nem se
berrarmos, porque eu já experimentei e não resultou!
Lá está ela a olhar
para o professor e para a intérprete que lhe vai traduzindo o que ele está a
dizer. Desde que a intérprete veio parece tudo mais claro! Afinal ela fala língua
gestual e consegue ler os lábios. Parece incrível como é que ela percebe exactamente
o que o professor quer sem ouvir. Estou há 20 minutos a olhar para a intérprete
e só percebi que o gesto de desenhar é como se desenhássemos no ar. E ela já está
a esboçar mais um dos seus desenhos perfeitos.
Vou-me aproximar, vou
sentar-me ao lado dela! Aceno a mão e faço o gesto de desenhar, apontado para o
papel. Ela sorri e mostra-me o desenho que se começa a parecer com uma
floresta. O objetivo é desenhar o que será o fim do mundo. Perguntei se era por
causa dos incêndios que destruíram uma grande área florestal do país. A intérprete
aproximou-se e traduziu. Ela respondeu. Disse que também era por isso mas o que
árvores têm de especial não é só o facto de nos darem oxigénio e serem o
habitat de tantos animais. O que as árvores têm de especial é que fazem isso
tudo e ainda são parecidas com os humanos. Há árvores que não podem estar
juntas, há ervas que são necessárias arrancar porque secam as árvores, há árvores
e plantas que protegem outras e fazem com que cresçam mais saudáveis. Eu não
percebi! A intérprete traduziu e eu não percebi!
Ela olhou para mim – já
disse que tem olhos azuis? Nunca os tinha visto tão de perto – inclinou a folha
para que ambos a víssemos e escreveu no meio da floresta:
“Há pessoas que não podem estar juntas.
Há olhares, medos, receios e estereótipos que têm que acabar antes que sequem o
coração das pessoas. Há pessoas que se protegem umas às outras, que não têm
medo das diferenças entre si, que se cuidam, que se cultivam, que ajudam, que
aparecem na nossa vida só para nos fazer crescer mais saudáveis.
Já disse que as árvores não são humanas?
Mas há humanos que são árvores!”
Peguei na caneta, olhei-lhe nos
olhos e escrevi:
“Hoje deixei de ser árvore e passei a
ser humano! Ensinas-me a tua língua?”
Sonhando
e Vivendo, Aniram Avlis.