sexta-feira, 23 de março de 2012

Á conversa com a Lua!

A menina que tinha pressa de crescer
O céu está estrelado hoje, hoje consigo-as ver perfeitamente. As estrelas são muito discretas, nem sempre as vemos, mas creio que estão sempre lá para apoiar a Lua e para olharem por nós. O céu intriga-me, é tão grande e ao mesmo tempo tão vazio, ou talvez vejo-o assim por não saber muito sobre ele, mas é assim que quero continuar a vê-lo, assim posso viajar entre ele sem ter medo de pisar o risco da lógica e da realidade e assim posso continuar a sonhar e a voar mesmo com os pés na terra, deitada e coberta pelo desconhecido.

E lá vem ela, a Lua, a minha companheira das noites em claro, das bebedeiras de energia e das doses de inspiração repentina. A Lua é realmente algo que eu aprecio. Para além da sua beleza notável, ela é quase como um elo de ligação entre todos e ninguém, porque, pode não ser da mesma forma nem ao mesmo tempo, mas todos a vemos e ela é sempre a mesma apesar de mostrar faces diferentes. É por isso que a admiro, é por isso que gosto de a observar e é por isso que me refugi-o junto dela – quando o tamanho do meu quarto me parece demasiado pequeno para todos os pensamentos que me invadem -.

- Podes parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?
- Desculpa, tens razão! Estava distraída a falar com os teus anjinhos luminosos e não me apercebi de que já tinhas chegado. Que história tens hoje para me contar?
- Elas são boas ouvintes, eu sei, eu sei! Bem, hoje vou contar-te a história de uma menina que não sabia ter calma. Tudo na vida dela era uma correria! Acordava e as seguintes horas até voltar a adormecer passavam a voar. Tinha pressa de crescer, de ter responsabilidades, de se apaixonar, de encontrar o homem certo, de amar, de ser amada, de casar e ter filhos mas, quando um dia acordou e se olhou ao espelho, viu que os anos não demoraram a passar, a sua pele já não era tão lisa e brilhante, o seu corpo mudara e a sua saúde já não era tão forte e imune a tudo. Já não era uma menina, já tinha crescido mas no fundo, não tinha nada daquilo que tanto ansiava. Nenhuma das suas paixonetas vingara, pouco sentiu o sabor do amor e estava longe de construir uma família. Foi nesse dia que demorou mais tempo em frente ao espelho; foi nesse dia que demorou mais tempo a vestir-se, a arranjar-se, a tomar o pequeno-almoço e a sair; foi nesse dia que se apercebeu de que ter pressa não nos leva a lado nenhum, não nos faz crescer mais rápido e também não faz com que os nossos sonhos se concretizem; foi nesse dia que finalmente percebeu que ter pressa só faz com que percamos a vida, que não vivamos os momentos como devem ser vividos, que não apreciemos as pequenas coisas aparentemente insignificantes, os pequenos gestos, os olhares timidamente cruzados e os beijos e toques magicamente trocados; foi nesse dia que decidiu não ter mais pressa para nada, antes que a vida passasse e fosse tarde demais para vivê-la.
Então quando saiu, olhou, com olhos de menina, para as flores do jardim pelo qual passava todos os dias e que nunca reparara como eram bonitas; olhou para as pessoas que por ali moravam e que para ela eram totalmente desconhecidas e disse-lhes educadamente e com uma certa alegria no tom, boa noite; olhou para o senhor que vendia algodão doce em frente á sua casa e lembrou-se que nunca tinha provado tal doce. Sorriu, aproximou-se da pequena barraquinha cor-de-rosa e pediu um com uma voz meiga e gentil, no mesmo instante um corpo surgiu por de trás dela, segurou-lhe rapidamente no pauzinho da bola de nuvem e acertou contas com o vendedor. Os seus olhares cruzaram-se fixamente, os sorrisos abriram-se automaticamente e com uma voz ainda mais doce, ela agradeceu-lhe. E iluminados por mim, lá seguiram os dois, entre conversas, gargalhadas e muito açúcar á mistura. E sempre com muita calma!

- Eu também gosto de algodão doce, achas que um dia também me vais iluminar enquanto me delicio com essa nuvem e a amabilidade de alguém?
- Acho acho! Agora está na hora de ires dormir!
- Mas o céu continua estrelado, o sono ainda não bateu á porta e ainda tens tantas histórias para me contar…
-Por hoje é tudo minha menina, noutro dia há mais! Agora vai lá, o sol não tarde a chegar e amanha é outro dia no qual tu vives cheia de sonhos e calma.


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

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