sábado, 24 de novembro de 2012

está na altura de Parar! está na altura de Viver!


O sol, que mal se vê, acabou de nascer, a rua, inundada pelas chuvas que nos fazem crer que vieram para ficar, está quase deserta, no entanto, mesmo que ninguém veja, há sempre alguém… Há sempre alguém na rua, há sempre alguém a ver-nos, há sempre alguém para nós…
Vão chegando carrinhas e carrinhas, umas seguidas das outras e com elas trazem já quase um dia inteiro, o mesmo dia que ainda mal começou para outros!
O pão já está nas prateleiras, as mesas limpas, as pessoas fardadas e outras com as fardas acabadas de tirar, as gaivotas invadem o céu, que hora acende hora apaga, longe do mar bravo e o dia continua…
As rotinas de cada um surgem e voltam a surgir sem fazer diferença nenhuma! Ninguém repara no que as rodeia, Ninguém pára para pensar no dia antes de ser dia, nem na noite antes de ser noite, Ninguém pára para pensar nos outros, Ninguém pára para pensar, Ninguém pára para fazer a diferença… Pois eu, eu quero ser Ninguém!

Está na altura de parar! Está na altura de viver!

Vou valorizar os pormenores, aprender com os erros maiores, ajudar quem precisa e não só quem me ajuda a mim, guardar as lágrimas e relembrar os sorrisos, apagar rancores e colecionar beijos e amores – beijos teus, talvez -. Vou viver!
Um dia pego numa mala, faço-me à estrada e vou por aí! Por entre essas ruas e caminhos que Ninguém conhece até chegar a ti, terra desafiadora, que teimas em fazer-me querer visitar-te, descobrir-te e roubar-te o que, infelizmente, é teu. E um dia roubo mesmo!
Mas por enquanto fico aqui, à espera que a chuva passe, que o sol se apodere do céu, que o deserto se encha de pessoas paradas e vivas e de diferenças! Porque há sempre alguém na rua, há sempre alguém a ver-nos, há sempre alguém para nós, há sempre alguém para ser Ninguém!

Está na altura de parar! Está na altura de viver!

Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quando o Amor bate à porta!


A vida nem sempre é clara, as pessoas nem sempre são o que aparentam ser e a porta nem sempre se abre ao amor certo! Mas se ele bater, a maçaneta não se gira sozinha…

A chuva dá graças de si e começa a cair com um ritmo apressado e continuo. A multidão num instante desaparece e ficam apenas aqueles dois corpos, sentados na relva molhada de um jardim qualquer, encostados a um guarda-chuva natural, grande, robusto e verde – como as árvores são nesta altura do ano quando as primeiras chuvas de fim de verão começam a ser cada vez mais frequentes – que os abriga e aconchega. A mão dele cobre-lhe o ombro como se a pudesse proteger de tudo e ela mantem-se clama, tranquila como se estivesse rodeada por uma força intocável. Continuam a falar, a rir ás gargalhadas, trocam tantos olhares como 

sorrisos mas nem sempre as palavras os acompanham - as palavras nem sempre são necessárias, existem pessoas que conseguem falar através do olhar, então não falam, “olham” e isso basta -. Entrelaçam as mãos, os sorrisos aumentam e o olhar torna-se um quanto envergonhado, tímido e eles, eles tornam-se duas crianças apaixonadas, inocentes, sem medo porque não veem maldade, porque são puros. Estão num lugar só deles, o sol ilumina-lhes os rostos, aquece-os e os seus lábios tocam-se, envolvem-se e tornam-se apenas um!
A chuva mantém o ritmo, a lua já tomou a sua posição e eles ainda ali estão, encharcados sem darem conta, porque isso não importa! E vá a noite adiante e venha o frio do relento que eles continuarão ali… A hora da despedida não lhes ganha à vontade de ficarem a falar, a rir ás gargalhadas e a trocar tantos olhares como sorrisos e agora, beijos.
Na verdade, são dois corpos adultos, com receios e passados, com uma vida para trás que os magoou e fê-los ser precisamente quem são hoje! Mas estão a descobrir algo valioso, que não vem quando nós queremos nem desaparece quando nos faz sofrer, o amor! Esta palavra multifacetada que quando aliada á paixão nos faz sorrir e chorar, querer tudo duma só vez e ficar sem nada quando as perdemos, estas palavras também já constaram nas páginas destes dois mas não foram as certas, não tinham que ser e quem sabe se estas serão? Eu não sei, eles também não! No entanto deixam que elas os invadam, tomem conta deles, das suas atitudes, para que se preencham mutuamente com a calma e o devagar que os adultos impõem e a sinceridade e pureza que as crianças refletem. Mas e se não forem? Podem acabar magoados mais uma vez, juntar esta a outras tantas desilusões que delas resultaram as lágrimas escorridas, as noites mal dormidas e os dias mal vividos. Mas não importa! Se virarmos as costas ao amor nunca saberemos se iriamos ser felizes ou não. Por isso eles vão tentar, vão desafiar a vida e o destino logo lhes responderá…


A vida nem sempre é clara, as pessoas nem sempre são o que aparentam ser e a porta nem sempre se abre ao amor certo! Mas se ele bater, eu vou girar a maçaneta! 



Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

domingo, 10 de junho de 2012

Á conversa com a Lua #2


Quando os caminhos se cruzam…


A madrugada já vai adiantada e eu continuo aqui, á tua espera, á espera que venhas para ao pé de mim, que me ilumines e que me contes mais uma das tuas histórias… Mas enquanto não chegas, eu penso em como deverá ser a tua vida. Imagino-a agitadíssima – deve ser uma correria cansativa andar sempre em torno de nós a iluminar-nos – mas, no entanto, também a vejo calma, tranquila, entusiasmante e, sem dúvida, muito enriquecedora – por tudo o que vês e aprendes, por todas as pessoas que conheces e ajudas - precisamente como te vejo a ti e como me fazes sentir. 

- A falar de mim às minhas companheiras outra vez?
- Sim. As estrelinhas são boas ouvintes, treinaste-as bem! Mas eu prefiro tomar o papel delas enquanto tu me falas duma nova aventura.
- Sempre a querer saber de tudo e de todos não é coscuvilheira?
- Não! Eu não sou nada disso, bem, gosto de saber essas histórias sim, mas é porque elas me encantam e me ensinam sempre alguma coisa.
- Eu sei eu sei, eu também gosto de te as contar, por isso vamos lá ver o que te reservei hoje…

- Era uma vez uma menina chamada Leonor. Leonor era uma daquelas sonhadoras incompreendidas que se apaixonava por todos os rapazinhos que eram cavalheiros e gentis com ela, muitos deles com intenções nada puras nem sinceras, mas enfim, ela acabava por se aperceber, mais tarde ou mais cedo. E depois lá vinham as desilusões, as lágrimas sem fim e tudo o que estas trazem com elas, quando esses espertinhos se esquecem que o coração de uma menina apaixonada não é para tratar como um brinquedo de crianças que se usa, parte e arruma-se, porque é inocente e frágil e não se pode colar cada pedacinho para ficar como novo! É esse o pior mal das ilusões falhadas, deixam sempre marcas por mais tempo que passe, algumas até se esquecem, mas a marca fica sempre lá e, por vezes, é difícil de ultrapassar.

- Vá lá passa á parte boa! Tem uma parte boa não tem?

- Tem sim, mas também tem muitas más! A vida não é um conto de fadas, mas por muitos momentos maus que nela se infiltrem, cada um de nós tem uma arma poderosíssima para os combater: o coração! E se lutarmos com o coração, os bons momentos tornam-se mais fortes e daí resulta uma positividade quase indestrutível. Mas adiante…
Depois de todos aqueles desamores, Leonor apaixonou-se de verdade, amou de verdade, já se tinha apaixonado antes, mas nenhuma paixão, nenhum amor, é igual ao que passou e chega um dia em que se encontra o mais forte, o mais intenso e, talvez, o mais verdadeiro e inconscientemente consciente – não significa que esse mesmo não possa passar para o lado dos que passaram e então vir um ainda mais forte, mas isso fica para outra história. Esse dia chegou quando ela menos esperava!
Chamava-se Francisco, era um rapaz encantador, respeitoso e fazia-a sentir-se como uma jovem apaixonada. Eu gostava muito de os apreciar! Andavam de mãos dadas com um brilho no olhar como tenho visto poucos, claro que nenhuma relação é perfeita, mas aquela era perfeita á maneira deles.
Porém, um dia, deixei de os ver a caminhar pelas ruas, juntos, como se estivessem sozinhos, deixei de ver o brilho nos seus olhares e – eu sei que não gostas destas partes – passei a vê-los separados, a seguirem caminhos opostos.

- Já acabou? Para ter esse fim mais valia não me a teres contado!

- Sê paciente minha menina! Ai ai ai!

- Desculpa Lua, mas tu…

- Eu sei que não gostas de finais tristes, mas esta historia nem sequer tem um final, pelo menos por agora. Por isso, deixa-me continuar…
Penso que ainda não te disse mas, ás vezes, os caminhos cruzam-se e descruzam-se mais que uma vez e o deles foi assim…

- Deixa-me adivinhar! Encontraram-se, olharam-se, sorriram e voltaram a namorar.

- Não, nada disso pequena sonhadora!
Um dia encontraram-se, por acaso, numa rua que tantas vezes já os tinha guiado, pararam um em frente ao outro, esticaram os braços, deram um aperto de mãos e sorridentes, ouvi-os dizer, com um nervoso miudinho e bem baixinho: 
- Muito prazer, chamo-me Leonor.
- O prazer volta a ser todo meu, Francisco.

- E depois? E depois?

- Depois, um dia saberás, os caminhos são repletos de surpresas, quem sabe o que nos espera?! Agora eu sei que está na hora de ires para a caminha, vamos lá vamos!

- Sim sim já vou, só mais uma coisa… tu acreditas mesmo que algo depois de acabar, pode voltar a resultar?

- Tu ainda és pequenina, mas um dia vais perceber que há coisas que não acabam de verdade e essas sim, eu acredito que se possam voltar a cruzar. Não creio que o passado volte e os momentos de repitam tal e qual como foram, no entanto, penso que há determinadas coisas na vida que são como os livros, têm um ponto final mas a saga continua com mais descobertas, mais maturidade, novos momentos e com a mesma nova paixão.


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

um Refúgio da Alma...

O sol nasce por de trás da montanha, os seus raios invadem-me o quarto entrando pela pequena janela de madeira gasta e apenas se ouve o cantar dos pássaros e o meu respirar. Levanto-me e deixo que o ar puro e madrugador me refresque o corpo e a alma. 

Estou longe de tudo e perto de mim. Aqui não há confusões por coisas desnecessárias, maus olhares ou sorrisos forçados. Aqui as pessoas dão valor ás pequenas coisas, não pelo seu tamanho mas sim pelo seu significado. Aqui, nesta aldeia – povoada por casinhas de madeira e pedra, antigas, gastas e fortes - que nem muita gente conhece, os rios correm calmos e claros, a natureza é dona de si mesma, as pessoas conhecem-se todas – o que não importa muito, porque mesmo que sejam estranhos, elas vão cumprimentar com o mesmo tom simpático e cortês que trocam entre si -, o ruido dos carros é abafado pelas caminhadas, tal como o seu fumo é pelo perfume ao qual ainda não dei um nome concreto, não consigo classificar a suavidade, a calma e o conforto que sinto, apenas me cheira bem.

Não vivo aqui nem tão pouco nasci cá, mas se pudesse escolher sem pensar em mais nada, viveria! Embora talvez, se eu fosse realmente daqui, a certa altura deixasse de ver esta terra com os olhos que a vejo. Dizem que quando desejamos algo, vemo-lo não só como ele é mas também como ele nos faz ser e, depois quando nos habituamos a tê-lo, deixa-mos de vê-lo assim e passamos a vê-lo apenas como ele é ou, por vezes, nem isso. Deixa-mos de dar importância ao que era importante, deixa-mos de admirar o que era admirável e tornamos tudo aquilo que deseja-mos numa rotina sem interesse. Mas eu não concordo com isso.
 Talvez esteja enganada, mas se desejamos algo, então não devemos deixar que a rotina vença e nos roube tudo aquilo que via-mos e tudo aquilo que era-mos quando o via-mos precisamente da forma como nos fazia sentir bem.

Por isso e por todo o resto que não sei descrever, eu acho que não me arrependeria de lá morar, eu acho que os meus olhos iam continuar a ver aquela aldeia - que parece de brincar – da mesma forma que a veem agora ou, quem sabe, com ainda mais encanto e, eu tenho a certeza que não me ia permitir, a mim própria, deixar de ver e sentir o encanto no que encantado é. Mas, por agora, aquele não é o lugar onde eu posso estar 24 horas por dia, o qual eu posso chamar de lar. Um dia, até pode vir a ser o meu lugar, mas, por agora, é apenas o meu refúgio.
E os refúgios são mesmo assim... Não são a nossa casa, mas é onde nos sentimos em casa; não nos pertencem mas nós pertencemos-lhes; não podemos viver sempre lá mas também não podemos viver sem lá ir.

O sol poe-se por de trás da velha igreja, fecho a pequena janela de madeira gasta, o meu corpo arrepia-se com a chegada do calor artificial do aquecedor e apenas se ouve o sino a tocar e o meu respirar.

Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Á conversa com a Lua!

A menina que tinha pressa de crescer
O céu está estrelado hoje, hoje consigo-as ver perfeitamente. As estrelas são muito discretas, nem sempre as vemos, mas creio que estão sempre lá para apoiar a Lua e para olharem por nós. O céu intriga-me, é tão grande e ao mesmo tempo tão vazio, ou talvez vejo-o assim por não saber muito sobre ele, mas é assim que quero continuar a vê-lo, assim posso viajar entre ele sem ter medo de pisar o risco da lógica e da realidade e assim posso continuar a sonhar e a voar mesmo com os pés na terra, deitada e coberta pelo desconhecido.

E lá vem ela, a Lua, a minha companheira das noites em claro, das bebedeiras de energia e das doses de inspiração repentina. A Lua é realmente algo que eu aprecio. Para além da sua beleza notável, ela é quase como um elo de ligação entre todos e ninguém, porque, pode não ser da mesma forma nem ao mesmo tempo, mas todos a vemos e ela é sempre a mesma apesar de mostrar faces diferentes. É por isso que a admiro, é por isso que gosto de a observar e é por isso que me refugi-o junto dela – quando o tamanho do meu quarto me parece demasiado pequeno para todos os pensamentos que me invadem -.

- Podes parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?
- Desculpa, tens razão! Estava distraída a falar com os teus anjinhos luminosos e não me apercebi de que já tinhas chegado. Que história tens hoje para me contar?
- Elas são boas ouvintes, eu sei, eu sei! Bem, hoje vou contar-te a história de uma menina que não sabia ter calma. Tudo na vida dela era uma correria! Acordava e as seguintes horas até voltar a adormecer passavam a voar. Tinha pressa de crescer, de ter responsabilidades, de se apaixonar, de encontrar o homem certo, de amar, de ser amada, de casar e ter filhos mas, quando um dia acordou e se olhou ao espelho, viu que os anos não demoraram a passar, a sua pele já não era tão lisa e brilhante, o seu corpo mudara e a sua saúde já não era tão forte e imune a tudo. Já não era uma menina, já tinha crescido mas no fundo, não tinha nada daquilo que tanto ansiava. Nenhuma das suas paixonetas vingara, pouco sentiu o sabor do amor e estava longe de construir uma família. Foi nesse dia que demorou mais tempo em frente ao espelho; foi nesse dia que demorou mais tempo a vestir-se, a arranjar-se, a tomar o pequeno-almoço e a sair; foi nesse dia que se apercebeu de que ter pressa não nos leva a lado nenhum, não nos faz crescer mais rápido e também não faz com que os nossos sonhos se concretizem; foi nesse dia que finalmente percebeu que ter pressa só faz com que percamos a vida, que não vivamos os momentos como devem ser vividos, que não apreciemos as pequenas coisas aparentemente insignificantes, os pequenos gestos, os olhares timidamente cruzados e os beijos e toques magicamente trocados; foi nesse dia que decidiu não ter mais pressa para nada, antes que a vida passasse e fosse tarde demais para vivê-la.
Então quando saiu, olhou, com olhos de menina, para as flores do jardim pelo qual passava todos os dias e que nunca reparara como eram bonitas; olhou para as pessoas que por ali moravam e que para ela eram totalmente desconhecidas e disse-lhes educadamente e com uma certa alegria no tom, boa noite; olhou para o senhor que vendia algodão doce em frente á sua casa e lembrou-se que nunca tinha provado tal doce. Sorriu, aproximou-se da pequena barraquinha cor-de-rosa e pediu um com uma voz meiga e gentil, no mesmo instante um corpo surgiu por de trás dela, segurou-lhe rapidamente no pauzinho da bola de nuvem e acertou contas com o vendedor. Os seus olhares cruzaram-se fixamente, os sorrisos abriram-se automaticamente e com uma voz ainda mais doce, ela agradeceu-lhe. E iluminados por mim, lá seguiram os dois, entre conversas, gargalhadas e muito açúcar á mistura. E sempre com muita calma!

- Eu também gosto de algodão doce, achas que um dia também me vais iluminar enquanto me delicio com essa nuvem e a amabilidade de alguém?
- Acho acho! Agora está na hora de ires dormir!
- Mas o céu continua estrelado, o sono ainda não bateu á porta e ainda tens tantas histórias para me contar…
-Por hoje é tudo minha menina, noutro dia há mais! Agora vai lá, o sol não tarde a chegar e amanha é outro dia no qual tu vives cheia de sonhos e calma.


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

terça-feira, 13 de março de 2012

E o tempo voa!

Os dias sopram.
Eu respiro.
As memórias voltam,
Com um suspiro.
E o tempo voa.

Trazem beijos inesquecíveis,
Sorrisos doces como tíbias,
Palavras amargas mas reversíveis,
Toques que só tu sentias.
E o tempo voa.

Escorrem lágrimas,
Relembram-se olhares,
Rasga-se o amor escrito nas páginas.
Guarda-se tudo como gostos e paladares.
E o tempo voa.

O sol volta a subir.
Os sonhos tornam-se reais,
Tu voltas a vir.
As saudades são fatais.
E o tempo voa.

Os dias correm.
Eu respiro.
As memórias fogem,
Com um suspiro.
E o tempo voa.



Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vidas Ocultas!

Sai de casa. Leva o cabelo amarrado, umas calças justas, umas botas com um padrão que me faz lembrar o natal e um casaco branco-sujo até aos joelhos, que a faz parecer uma daquelas detectives das séries do AXN. Sobe a rua com uma pressa descontraída, como se os seus pés soubessem precisamente para onde vão mas a sua postura discreta reflectisse um destino incerto. Muito segura de si, continua a caminhar, sempre com o mesmo ritmo, ignora todos os olhares que nela fixam, mas faz um registo preciso de quem nela reparou. A rua chega ao fim, o metro vem, ela entra e a porta fecha.
Volta a descer a mesma rua ao fim do dia, igualmente parecida às detectives das séries do AXN, com a mesma pressa descontraída, como se os seus pés soubessem precisamente de onde vêm e a sua postura discreta não lhes permitisse revelar a ninguém. Abre a porta, entra e é como se nunca tivesse saído.
Ninguém sabe onde foi, ninguém sabe se vai todos os dias para o mesmo sítio, na verdade, ninguém sabe se realmente ela chegou a sair.

Esta rotina, aparentemente coordenada, dura á já alguns anos e eu conheço-a quase como se fosse minha. É como se fossem os meus olhos que vêem o metro chegar e os meus pés que sobem aquela rua. Sei de cor todos os degraus que ela subiu, sei de cor todas as lágrimas que ela deitou, acredito que ainda tenha muitos mais para subir e não suporto ver as lágrimas a caírem-lhe. Imagino todos os olhares trocados, todas as palavras, todos os beijos, todos os toques e desejos. Não esqueço nenhum sorriso que tudo isto a faz ter, não esqueço a felicidade que tudo isto lhe traz e, um dia, espero encontrar o amor que ela encontrou. - Talvez não da mesma forma, sem duvida nenhuma, da mesma forma não. Mas cada pessoa tem a sua maneira de amar, cada pessoa tem o seu amor perfeito, que de perfeito não tem nada, mas os nossos olhos não conseguem vê-lo doutra forma. Mas para mim, no fundo, amor é amor, independentemente de como seja mostrado e tratado, o amor verdadeiro só tem um significado, ou então não tem nenhum e é por isso que ninguém sabe descrevê-lo com precisão. - E é por tudo isto que aprecio esta loucura com tanta admiração que já me parece tudo bem possível, e na verdade é! Mas eu não conheço ninguém que a pudesse cometer a não ser ela.
A vida é mesmo assim, somos nós que escolhemos o nosso caminho e ela escolheu o dela com todos os medos e inseguranças que qualquer um sentiria, mas enfrentou-o com a coragem e determinação que só ela sabe ter. É isso que faz com que este jardim, onde só entra quem ela quer, seja dos lugares que mais me ensina e o que mais a completa, apesar de todos os espinhos que nele tentam entrar. E como me sinto tão pertencente àquele refúgio, atrevi-me a dar-lhe um nome: Coração. 

Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Um misto de sonhos e realidade

O sol já nasceu. Não há melhor sitio para o ver a aparecer do que este: o cimo do castelo dos sonhos. Não é muito alto, mas é forte e seguro, está rodeado de jardins e flores, de lagos com sombras de arvores - às quais aqui se dá valor por serem a casa de tantos bichinhos -, de calma e alegria, de amor e paixão, de confiança e desejos, e acima de tudo, de sonhos.
Aqui não há impossíveis porque há esperança, não há lágrimas de tristeza porque os sorrisos assim não o permitem e também não há portas trancadas que só se abrem para alguns, porque existe a chave mestra ao alcance de todos, a capacidade de sonhar.
O nascer do sol representa o começo de um novo dia, o começo de um novo presente, e eu gosto de o ver precisamente daqui! Rodeada por toda esta magia que me faz acreditar num futuro melhor vivido num mundo quase tão perfeito como este. Mas para que isso possa acontecer, continuo a ver o pôr-do-sol no meu mundo real – que é bem mais frio, traiçoeiro, às vezes injusto e mais pobre de espírito e confiança, porque ainda não descobriram que há uma chave que resolve quase tudo. É só preciso sonhar, acreditar e lutar!
Mas é precisamente por isso que este é o meu lugar de eleição para apreciar a saída do sol, porque apesar de transmitir um misto de romantismo e tranquilidade, este fenómeno indica o fim de um dia e o inicio de um passado, que nele guarda todas as lágrimas e sorrisos, todas as derrotas e conquistas, todos os amores e desamores e todos os sonhos que ficaram por realizar.

O passado faz parte da vida, é como se fosse uma caixinha onde guardamos tudo o que um dia fez parte de nós e que agora nos faz ser quem somos. É por isso, tão importante como o presente, mas duma forma diferente. O presente é a base do futuro e o passado é a base do presente. E a base de alguma coisa é o que dá consistência e segurança para que algo possa crescer e ser forte, então, para mim, são os dois igualmente essenciais, são os dois a minha base.
Então vou continuar a vê-los de mundos diferentes – toda a gente devia tentar pelo menos -, para que possa ter a certeza de que não há impossíveis e também a clareza de que há sim, coisas que temos de guardar naquela tal caixinha, para que possa chorar para depois poder sorrir, e acima de tudo, para que possa continuar a sonhar mas com os pés bem assentes em terra firme e assim fazer com que os meus sonhos não façam parte do passado, mas que sejam o meu futuro.

Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.