Quando os caminhos se cruzam…
A madrugada já vai adiantada e eu continuo
aqui, á tua espera, á espera que venhas para ao pé de mim, que me ilumines e
que me contes mais uma das tuas histórias… Mas enquanto não chegas, eu penso em
como deverá ser a tua vida. Imagino-a agitadíssima – deve ser uma correria
cansativa andar sempre em torno de nós a iluminar-nos – mas, no entanto, também
a vejo calma, tranquila, entusiasmante e, sem dúvida, muito enriquecedora – por
tudo o que vês e aprendes, por todas as pessoas que conheces e ajudas -
precisamente como te vejo a ti e como me fazes sentir.
- A falar de mim às minhas companheiras
outra vez?
- Sim. As estrelinhas são boas ouvintes, treinaste-as bem! Mas eu prefiro tomar
o papel delas enquanto tu me falas duma nova aventura.
- Sempre a querer saber de tudo e de todos não é coscuvilheira?
- Não! Eu não sou nada disso, bem, gosto de saber essas histórias sim, mas é
porque elas me encantam e me ensinam sempre alguma coisa.
- Eu sei eu sei, eu também gosto de te as contar, por isso vamos lá ver o que
te reservei hoje…

- Era uma vez uma menina chamada Leonor.
Leonor era uma daquelas sonhadoras incompreendidas que se apaixonava por todos
os rapazinhos que eram cavalheiros e gentis com ela, muitos deles com intenções
nada puras nem sinceras, mas enfim, ela acabava por se aperceber, mais tarde ou
mais cedo. E depois lá vinham as desilusões, as lágrimas sem fim e tudo o que
estas trazem com elas, quando esses espertinhos se esquecem que o coração de
uma menina apaixonada não é para tratar como um brinquedo de crianças que se
usa, parte e arruma-se, porque é inocente e frágil e não se pode colar cada
pedacinho para ficar como novo! É esse o pior mal das ilusões falhadas, deixam
sempre marcas por mais tempo que passe, algumas até se esquecem, mas a marca
fica sempre lá e, por vezes, é difícil de ultrapassar.
- Vá lá passa á parte boa! Tem uma parte
boa não tem?
- Tem sim, mas também tem muitas más! A vida
não é um conto de fadas, mas por muitos momentos maus que nela se infiltrem,
cada um de nós tem uma arma poderosíssima para os combater: o coração! E se
lutarmos com o coração, os bons momentos tornam-se mais fortes e daí resulta
uma positividade quase indestrutível. Mas adiante…
Depois de todos aqueles desamores, Leonor apaixonou-se de verdade, amou de
verdade, já se tinha apaixonado antes, mas nenhuma paixão, nenhum amor, é igual
ao que passou e chega um dia em que se encontra o mais forte, o mais intenso e,
talvez, o mais verdadeiro e inconscientemente consciente – não significa que
esse mesmo não possa passar para o lado dos que passaram e então vir um ainda
mais forte, mas isso fica para outra história. Esse dia chegou quando ela menos
esperava!
Chamava-se Francisco, era um rapaz encantador, respeitoso e fazia-a sentir-se
como uma jovem apaixonada. Eu gostava muito de os apreciar! Andavam de mãos
dadas com um brilho no olhar como tenho visto poucos, claro que nenhuma relação
é perfeita, mas aquela era perfeita á maneira deles.
Porém, um dia, deixei de os ver a caminhar pelas ruas, juntos, como se
estivessem sozinhos, deixei de ver o brilho nos seus olhares e – eu sei que não
gostas destas partes – passei a vê-los separados, a seguirem caminhos opostos.
- Já acabou? Para ter esse fim mais valia
não me a teres contado!
- Sê paciente minha menina! Ai ai ai!
- Desculpa Lua, mas tu…
- Eu sei que não gostas de finais tristes,
mas esta historia nem sequer tem um final, pelo menos por agora. Por isso,
deixa-me continuar…
Penso que ainda não te disse mas, ás vezes, os caminhos cruzam-se e
descruzam-se mais que uma vez e o deles foi assim…
- Deixa-me adivinhar! Encontraram-se,
olharam-se, sorriram e voltaram a namorar.
- Não, nada disso pequena sonhadora!
Um dia encontraram-se, por acaso, numa rua que tantas vezes já os tinha guiado,
pararam um em frente ao outro, esticaram os braços, deram um aperto de mãos e sorridentes,
ouvi-os dizer, com um nervoso miudinho e bem baixinho:
- Muito prazer, chamo-me
Leonor.
- O prazer volta a ser todo meu, Francisco.
- E depois? E depois?
- Depois, um dia saberás, os caminhos são
repletos de surpresas, quem sabe o que nos espera?! Agora eu sei que está na
hora de ires para a caminha, vamos lá vamos!
- Sim sim já vou, só mais uma coisa… tu
acreditas mesmo que algo depois de acabar, pode voltar a resultar?
- Tu ainda és pequenina, mas um dia vais
perceber que há coisas que não acabam de verdade e essas sim, eu acredito que
se possam voltar a cruzar. Não creio que o passado volte e os momentos de
repitam tal e qual como foram, no entanto, penso que há determinadas coisas na
vida que são como os livros, têm um ponto final mas a saga continua com mais
descobertas, mais maturidade, novos momentos e com a mesma nova paixão.
Sonhando
e Vivendo, Aniram Avlis.