quinta-feira, 9 de junho de 2011

Há dias assim...

"Há dias em que acordo com dez anos, o cabelo despenteado e os olhos a brilhar como duas estrelas. Podes estar ou não ao meu lado a dormir como uma criança, ou a viver na minha memória, mas sinto sempre o teu cheiro e oiço a tua respiração regular e vejo o teu peito a subir e a descer ao ritmo do teu coração. O ar enche-se de açúcar em camadas invisíveis que se espalham por toda a casa e nos acompanham à rua quando saímos, sempre atrasados, porque nunca nos queremos separar." 
Há outros dias em que acordo exactamente com a mesma idade, o cabelo igualmente despenteado e os olhos igualmente brilhantes. Nesses dias tu não estás ao meu lado a dormir como um pequeno anjinho sem asas, o teu cheiro e o sinal do teu respirar perduram, mas o meu brilhar de olhos e o meu recuo de idade devem-se ao facto de que lá para a tarde, quando o sol ainda estiver a repousar antes de ir dormir, eu vou-te ver, vou-te abraçar e vou dizer bem baixinho ao teu ouvido, para que não sejam os teus tímpanos que ouçam mas sim o teu coração, que te amo. Aí o brilho no olhar aumenta, os dez anos aumentam para a idade da adolescência (onde eu sou uma tonta apaixonada), o meu coração acelera mais que um carro de corridas e por fim, com uma ansiedade discreta, os meus lábios tocam os teus e logo esboçam um sorriso que permanece enquanto o meu radar de visão te detectar.


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tramonto

Estamos numa daquelas semanas de verão no inverno, o sol brilha todo o dia e a noite está agradável e serena. Perfeita para um romance e nós fazemos-lhe jus.
Numa cidade algures, talvez em Veneza, está um casal estupidamente apaixonado a contar os minutos para que o dia comece e o sol acorde, para que ao fim da tarde possam ir passear, quem sabe num daqueles barquinhos parecidos com os que há em Aveiro, e juntos verem o pôr-do-sol.
Eu, num sítio qualquer, talvez perdida no corredor das memórias a deslumbrar-te, peço ao tempo para que se apresse para que chegue amanha e eu te possa voltar a ver. Mas o tempo não facilita. Quando estamos juntos, sim! O ponteiro das horas teima em acelerar e o dos minutos não faz nada para o travar. Mas quando sou eu a pedir, ele simplesmente me ignora, como se fosse superior a mim e até é, apesar de eu já saber lidar com isso.
Por isso, amanha, quando o sol acordar, porque ele também tem que dormir, que descansar muito para poder brilhar quando me beijas - ou então são os meus olhos que brilham e se confundem com a luz do dorminhoco - , eu vou estar com uma ansiedade serena, de quem sabe que o tempo não voa quando se está só, á espera que aquela bola brilhante, com que se misturam os meus olhos quando te vêem, vá dormir, porque, quem sabe, amanha não seremos nós a ir passear, não num moliceiro mas isso pouco importa quando se têm pés e um coração a bater, mas sim junto á praia (que substitui o rio de Veneza ou a ria de Aveiro, quando a única coisa que temos no bolso é saudade e não dinheiro para viajar-mos até lá) e então vermos juntos o pôr-do-sol, a hora mais bonita de um dia de verão, quando o sol se esconde por de trás das nuvens e lá fica enquanto a majestosa lua ilumina a noite que se segue.
É nessa altura que estamos abraçados a guardar na memória todos os bons momentos que passamos durante o repentino dia, para que nos dias em que o tempo volte a desprezar-me, eu possa recorda-los e assim dizer para mim mesma, como uma auto-ajuda contra a saudade, que seja o tempo arrogante e superior, o ponteiro das horas apressado e teimoso e o dos minutos cúmplice e inútil, eu estarei sempre perdida algures até tu me encontrares e me levares a ver o sol. Altura essa em que eu te digo, com um brilho reforçado no olhar, que estamos num dia de verão infiltrado no inverno e que isso é só uma desculpa para no fim dizer que te amo.

Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis

Linha 6 – Senhorita!

Expresso Saudade e Paixão


Vais em direcção a Aveiro, com uma mala de rodinhas e uma mochila às costas. Eu fico aqui, nesta cidade imensamente povoada e tão vazia quando tu partes, contando as horas para que te possa ver outra vez e sentir-me segura nos teus braços.
Comigo fica mais um fim-de-semana e todas as duvidas que surgem e no minuto a seguir desaparecem, com as tuas palavras de segurança, e que voltam passado algumas horas, quando a minha mente já sente falta de te ouvir dizer que me adoras e o meu corpo de sentir o calor do teu, quando me agarras com uma brutalidade meiga e os teus lábios tocam os meus como se beijassem algo frágil e intocável.
Depois, tudo volta ao normal. São quatro dias de uma rotina descoordenada na qual falo contigo a maior parte do dia.
Falamos tanto que quase me vejo ao teu lado, nas ruas da pequena cidade, em cima de uma das rústicas pontes que atravessam o belo rio. Onde passamos horas e horas a falar, a sorrir, a trocar olhares em pleno silêncio, como se fossem os olhos que falam e não a boca.
A noite cai e eu volto, com os lábios tristemente doces, depois do teu beijo de despedida e com uma flor na mão que me faz sentir a ingenuidade de uma paixão adolescente como as que relatam nos filmes – quando o jovem cavalheiro dá uma flor á senhorita encantada pelo tranquilo e magnifico campo de gerberas que a rodeia.
Então dou por mim na escola, de onde não sai nem por um segundo e está na hora de voltar para casa. Assim o faço!
Abro apressadamente a porta do meu quarto e olho para a rosa que me deste e isso conforta-me.
Não estive contigo, nem sequer em Aveiro, mas tenho uma flor que mesmo não sendo uma gerbera, me faz sentir uma senhorita apaixonada.
Isto não basta para que as saudades não permaneçam, mas ajuda-me a conseguir passar os demorados quatro dias até tu voltares.
E lá vens tu, em direcção ao Porto, com uma mala de rodinhas e uma mochila ás costas. Chegas a Campanhã onde eu te encontro com um sorriso na cara e um brilho no olhar, uns dez minutos depois, pois estou atrasada como sempre.
A minha mente volta a ouvir-te dizer que me adoras, o meu corpo volta a sentir o calor do teu e os teus lábios tocam os meus, como se beijassem algo frágil e seu.
As dúvidas desaparecem e fica apenas a certeza de que te adoro e não te quero perder.


Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis.