Estamos numa daquelas semanas de verão no inverno, o sol brilha todo o dia e a noite está agradável e serena. Perfeita para um romance e nós fazemos-lhe jus.
Numa cidade algures, talvez em Veneza, está um casal estupidamente apaixonado a contar os minutos para que o dia comece e o sol acorde, para que ao fim da tarde possam ir passear, quem sabe num daqueles barquinhos parecidos com os que há em Aveiro, e juntos verem o pôr-do-sol.
Eu, num sítio qualquer, talvez perdida no corredor das memórias a deslumbrar-te, peço ao tempo para que se apresse para que chegue amanha e eu te possa voltar a ver. Mas o tempo não facilita. Quando estamos juntos, sim! O ponteiro das horas teima em acelerar e o dos minutos não faz nada para o travar. Mas quando sou eu a pedir, ele simplesmente me ignora, como se fosse superior a mim e até é, apesar de eu já saber lidar com isso.
Por isso, amanha, quando o sol acordar, porque ele também tem que dormir, que descansar muito para poder brilhar quando me beijas - ou então são os meus olhos que brilham e se confundem com a luz do dorminhoco - , eu vou estar com uma ansiedade serena, de quem sabe que o tempo não voa quando se está só, á espera que aquela bola brilhante, com que se misturam os meus olhos quando te vêem, vá dormir, porque, quem sabe, amanha não seremos nós a ir passear, não num moliceiro mas isso pouco importa quando se têm pés e um coração a bater, mas sim junto á praia (que substitui o rio de Veneza ou a ria de Aveiro, quando a única coisa que temos no bolso é saudade e não dinheiro para viajar-mos até lá) e então vermos juntos o pôr-do-sol, a hora mais bonita de um dia de verão, quando o sol se esconde por de trás das nuvens e lá fica enquanto a majestosa lua ilumina a noite que se segue.É nessa altura que estamos abraçados a guardar na memória todos os bons momentos que passamos durante o repentino dia, para que nos dias em que o tempo volte a desprezar-me, eu possa recorda-los e assim dizer para mim mesma, como uma auto-ajuda contra a saudade, que seja o tempo arrogante e superior, o ponteiro das horas apressado e teimoso e o dos minutos cúmplice e inútil, eu estarei sempre perdida algures até tu me encontrares e me levares a ver o sol. Altura essa em que eu te digo, com um brilho reforçado no olhar, que estamos num dia de verão infiltrado no inverno e que isso é só uma desculpa para no fim dizer que te amo.
Sonhando e Vivendo, Aniram Avlis
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